Familiares da vítimas do acidente ainda não receberam os valores dos seguros

10 de setembro de 2019

Uma série de e-mails trocados entre a proprietária da companhia aérea LaMia, a venezuelana Loredana Albacete, e o corretor de seguros da AON, o britânico Simon Kaye, demonstram que ambos sabiam das proibições para as operações da empresa boliviana que transportou a Chapecoense no fatídico voo que caiu no morro Cerro Gordo, em Medellín, na Colômbia, vitimando 71 pessoas em novembro de 2016. Um dos exemplos ignorados por ambos é a proibição de que voos fretados sobrevoem o espaço aéreo da Colômbia. As informações foram publicadas pelo UOL Esporte nesta terça-feira (10).

Os e-mails estão numa série de documentos disponibilizados ao Senado Federal e obtidos pelo UOL Esporte que demonstram que a companhia aérea tinha seguro para a aeronave, à despeito das famílias ainda não terem recebido os valores sobre o acidente. Em um dos trechos, a negociação entre Loredana Albacete e Simon Kaye demonstra que a LaMia contava com uma série de voos futuros para convencer a AON a assegurar a nave:

“Odeio pressionar você com tempo quando eu tenho atrasado nas respostas, mas não tenho opções. Vamos ter de assinar o contrato na segunda para a viagem de 10 de abril. (…) Espero que você entenda. É um cliente com alto potencial para nós. Eles lidam com todos os times de futebol e a temporada está começando”, escreve Loredana. A referência é à Off Side Logística, empresa sediada no Rio de Janeiro que intermediou negociações com a Chapecoense e outros clubes. A viagem citada não ocorreu: era para o The Strongest ir para a Venezuela, mas o seguro não saiu a tempo.

A Colômbia proíbe que voos fretados sobrevoem seu espaço aéreo por temor de atos terroristas de grupos guerrilheiros contra essas aeronaves e, a partir disso, as companhias seguradoras não fazem apólices para aeronaves que sobrevoam o destino. Mas a LaMia conseguiu, mesmo com e-mails avisando que a Colômbia seria destino frequente. Ainda em abril, a AON, por meio de Kaye, dava sinal verde para a cobertura da nave

“Querida Loredana, obrigado pelo seu e-mail. Vamos proceder para formalizar a indicação, obtivemos suporte da cobertura aérea”, diz a resposta, discutindo ainda uma queda no valor da cobertura, para que houvesse redução no custo da apólice: “Vamos investigar se tem alguma redução significante na cobertura entre US$ 25 milhões e 50 milhões, então você pode decidir qual o valor a comprar”. No mesmo texto, o agente da seguradora AON sugere retirar a cobertura de seguro da tripulação, o que não foi aceito por Loredana, diz a reportagem do UOL Esporte.

As trocas de mensagens demonstram que a empresa tinha influência política para convencer os clubes a voarem com sua aeronave. Até então desconhecida, a LaMia transportou desde a Argentina de Messi até a Chapecoense no voo que nunca pousou na Colômbia. Apesar dos diálogos demonstrarem que a AON sabia que a LaMia circulava em espaço aéreo colombiano, a empresa britânica hoje usa a proibição de voos fretados para aquele país como um dos argumentos para negar dialogar com as famílias das vítimas para o pagamento de uma indenização.

Governos da Colômbia e da Bolívia se eximem de culpa

Com base nas mensagens fornecidas pela própria família Albacete, proprietária da LaMia, as famílias que perderam entes queridos no acidente da Chapecoense agora cobram responsabilização dos governos colombiano, boliviano e das seguradoras AON, Bisa e Tokio Marine – esta, citada como responsável pelo pagamento de uma espécie de “fundo humanitário” oferecido para as famílias no valor de US$ 225 mil para cada família, um valor diferente dos US$ 300 milhões que as famílias pleiteiam mediante o valor padrão de uma apólice aérea.

“A AON renova as apólices desde 2012, conhece o mercado de aviação, vinha com limite de 300 milhões de dólares e troca por uma de 25 milhões por qualquer motivo. Pense que o avião tivesse caído na cidade: US$ 25 milhões não cobrem as responsabilidades, já não cobre apenas com os passageiros; a AON conhece o risco, é a assessoria para seguros do cliente e oferece uma apólice menor”, argumenta Abel Dias, consultor especialista em seguros contratado pela AFAV-C (Associação das Famílias de Vítimas do Acidente da Chapecoense). As famílias já convidaram as partes para audiências públicas no Senado e na Câmara. Bolívia, Colômbia e AON não compareceram.

A cobrança quanto aos governos vizinhos se dá pelo aceite do plano de voo, sabedores de que não há seguro para voo fretado rumo à Colômbia, além da própria irregularidade do planejamento de combustível. Paradoxalmente, mesmo assegurando a nave, a AON argumenta que não poderia assegurá-la pela mesma regra.

O UOL Esporte procurou o escritório da AON em Londres para comentar o caso. Por meio de sua assessoria de imprensa, a empresa se manifestou dizendo que “A AON atuou somente como corretora de resseguros, ou seja, intermediando e apoiando na colocação da proteção de resseguros para a companhia seguradora. Qualquer tratativa sobre indenizações e reclamações, e sobre as condições do programa de seguros, deve ser conduzida com o segurador do risco. A AON não comenta assuntos de clientes.”

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