Estudo feito em universidade da Inglaterra prevê redução drástica nas áreas com clima favorável para a árvore no Sul do Brasil nas próximas décadas

1 de outubro de 2019

Elas estão aqui desde muito antes das pessoas e da história oficial de Santa Catarina. Símbolo da paisagem da Serra catarinense e de regiões vizinhas no Paraná e Rio Grande do Sul, a araucária é uma árvore de importância cultural e econômica para o Sul do Brasil. Semente da araucária, o pinhão rendeu para SC, apenas no ano passado, mais de R$ 8,7 milhões em uma safra de 3,6 mil toneladas — a maior do Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Embora tão tradicional nas paisagens catarinenses, a população de araucárias no Estado é atualmente apenas uma pequena fração do que já foi na história, por conta da exploração madeireira desenfreada no século passado. Hoje em dia, cortar essas árvores é proibido, mas um outro fator pode ser responsável pelo desaparecimento das araucárias no Sul do Brasil: as mudanças climáticas.

Um estudo recém-divulgado e publicado na revista científica Global Change Biology aponta para um cenário nem um pouco animador para as araucárias em Santa Catarina. Assinado pelo pesquisador britânico Oliver Wilson, do programa de Geografia e Ciências Ambientais da universidade de Reading, na Inglaterra, em parceria com outros pesquisadores do Brasil e da Suécia, o artigo detalha uma série de simulações feitas com diversos modelos climáticos para as próximas décadas, com base em dados atualizados e mapas de alta resolução.

No cenário mais otimista desenhado pelos pesquisadores, 85% do ambiente favorável para o crescimento de araucárias na região terá desaparecido até 2070. Em outros cenários menos otimistas os pesquisadores não encontraram nenhum lugar no Sul do Brasil em que as árvores teriam o clima próprio para sobrevivência da espécie daqui a 50 anos.

O tema da extinção das araucárias não é novo e já foi alvo de outras pesquisas no Brasil nos últimos anos, mas até então não havia uma análise com tantas variáveis e cenários como a do novo estudo.

Na “lista vermelha” global

Também chamada de pinheiro-do-paraná, a araucária conhecida dos catarinenses está na lista de espécies em “perigo crítico” da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN em inglês), que faz a mais tradicional “lista vermelha” da fauna e flora global. O ponto atual da araucária é o último na escala antes da extinção na natureza.

Em entrevista exclusiva ao NSC Total, o pesquisador Oliver Wilson explica que as araucárias são “fósseis vivos” e uma das espécies mais especiais do planeta:

— Elas vivem em áreas relativamente frias e constantemente úmidas, condições que estão desaparecendo por causa das mudanças climáticas. Por isso estamos preocupados com como elas vão lidar com essas mudanças no futuro. O estudo busca ajudar a entender como as araucárias vão responder às temperaturas mais altas e chuvas menos regulares nas próximas décadas, e onde estarão as melhores chances de sobrevivência.

A boa notícia que surge dentro da pesquisa é a aparição de “microrrefúgios” para as araucárias no Sul do Brasil: pequenos espaços como os vales de rios, por exemplo, que vão manter temperaturas mais amenas e o ar mais úmido mesmo com as mudanças previstas para o clima. Essas áreas, segundo Wilson, podem ser a chave para a sobrevivência das araucárias:

— Quando nós prevemos a distribuição de araucárias em 2070 apenas com dados climáticos, não encontramos nenhum lugar no Sul do Brasil onde as árvores teriam grandes chances de ocorrência. Mas, quando incluímos pequenas escalas de informações sobre o terreno, nós encontramos algumas áreas que conservaram o habitat que combina com a araucária muito bem. Essas áreas estão de forma geral em vales de rios com alta elevação no sudeste e centro da Serra Catarinense, no nordeste do Rio Grande do Sul e no sul do Paraná. No entanto, 37% da área que poderia servir de microrrefúgio para a araucária já perdeu a sua vegetação natural.

Presente em parques federais e estaduais

Embora no cenário projetado para o futuro a araucária possa ter a sua área de ocorrência limitada, atualmente a árvore é preservada em várias unidades de conservação em Santa Catarina. Além de parques federais como o de São Joaquim e de Aparados da Serra, a espécie é encontrada em três das 10 unidades de conservação estaduais manejadas pelo Instituto do Meio Ambiente (IMA) em SC: o Parque Estadual das Araucárias (em São Domingos, no Oeste), o parque da Serra do Tabuleiro (Grande Florianópolis) e o parque do Rio Canoas (Campos Novos).

Segundo o biólogo Marcos Eugênio Maes, do IMA, atualmente a araucária não possui um plano de conservação específico no Estado, mas deve ser uma das espécies presentes no programa de conservação da flora que o órgão vai desenvolver nos próximos meses. O plano de manejo sustentável da árvore também é estudado atualmente, mas sem nenhuma previsão e, inclusive, com debates sobre os pontos favoráveis e negativos da medida que permitiria o corte das araucárias, desde que elas fossem plantadas novamente.

De acordo com o Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora), as estatísticas apontam que a população de araucárias já sofreu uma redação acima de 80% no Brasil no último século. Esse dado colocaria a espécie na lista do órgão como “criticamente em perigo”, assim como é apontado no ranking internacional da IUCN, mas o CNCFlora faz uma ressalva otimista e classifica a araucária como espécie “em perigo” — um nível de risco abaixo — exatamente por notar que ela está “representada em diversas unidades de conservação de proteção integral, por ser uma espécie com alto potencial de cultivo e também colonizadora de áreas abertas”.

Análises do clima apontam para mais eventos extremos em SC

As mudanças climáticas estudadas pelos pesquisadores britânicos mostram previsões de temperaturas mais quentes e regime de chuvas menos consistente na região do Sul. O cenário também é estudado com frequência no Brasil e mostra resultados alinhados aos do novo estudo internacional sobre as araucárias.

Doutor em meteorologia e atual coordenador do mestrado em clima e meio ambiente do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), o professor Mário Quadro explica que as previsões utilizam cenários matemáticos e estatísticos em previsões curtas, de meses, e também para décadas e até séculos.

— Tem cenários mais otimistas que apontam variações menores, mas cenários mais catastróficos preveem dois ou três graus a mais de temperatura no Sul do Brasil. A tendência é de mais eventos extremos em Santa Catarina e menos frio, o que deve forçar a vegetação tradicional dessa área a seguir mais ao Sul, onde deve permanecer mais frio — explica.

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