Ossada foi achada durante obras da BR-470; estudos indicam que sambaqui está situado onde antes era uma pequena ilha entre o rio e o mar

13 de outubro de 2019

Quase um ano e meio após a escavação do Sambaqui Ilhota 2, análises em laboratório levaram os pesquisadores a novas conclusões sobre o modo de vida das populações que viviam no Vale do Itajaí há milhares de anos.

No sítio arqueológico, localizado em uma área próxima à obra de duplicação da rodovia BR-470, no município de Ilhota, foram encontrados dois esqueletos humanos, ossos de animais e fogueiras.

A descoberta foi feita em junho de 2018. Um dos esqueletos pertenceu a uma mulher com idade entre 20 e 30 anos.

As ossadas estavam a 20 metros de distância uma da outra. Porém, ambas na base do sítio. O material está sob a guarda da Unesc (Universidade do Extremo Sul Catarinense) em Criciúma.

Os estudos realizados pela Espaço Arqueologia indicam que, quando construído, o sambaqui estaria situado em uma pequena ilha estuarina, ambiente aquático de transição entre o rio e o mar.

A ilhota teria sido um refúgio para eventos ritualísticos, contexto evidenciado pelas condições do sepultamento de um membro do grupo que viveu há aproximadamente 5.880 anos.

Com a regressão do nível do mar, a região passou a fazer parte do continente, como conhecemos hoje.

Esqueleto pertenceu a uma mulher

O esqueleto estudado pertenceu a uma jovem mulher, cuja causa da morte é desconhecida.

A mulher foi sepultada em cova rasa, deitada de lado e com as pernas e braços parcialmente dobrados.

Após análise dos ossos, foi possível constatar que, no primeiro momento do ritual, pigmentos vermelhos de origem mineral ferroso, popularmente conhecido como ocre, foi pulverizado sobre o corpo.

Depois do tingimento, conforme as análises, foi construída uma grande fogueira ao lado da cova, onde foram consumidos muitos peixes, e seus ossos jogados ao fogo.

Por fim, o corpo foi coberto por um monte com cerca de 50 cm de conchas.

Um dos esqueletos encontrados pertenceu a uma mulher – Foto: Espaço Arqueologia/Divulgação/ND

A Espaço Arqueologia informou que o segundo esqueleto encontrado não estava suficientemente preservado, pois uma árvore nasceu bem em cima dele. Por esse motivo, não foi possível descobrir o sexo, a idade, entre outras características.

Modo de vida e hábitos alimentares

De acordo com a pesquisa, o contexto está diretamente relacionado com o modo de vida praticado pela comunidade.

Por meio da observação de microvestígios, especificamente fitólitos (resíduos de plantas), realizada pelo biólogo Alexandre Silva, foi possível esclarecer um pouco mais sobre os hábitos alimentares do grupo de pescadores-coletores.

O pesquisador estimou a dieta do grupo por meio da análise de dois tipos distintos de vestígios: ossos de animais encontrados no entorno do sítio, e fitólitos, materiais extraídos dos tártaros encontrados na carga dentária da mulher.

A grande quantidade de ossos de peixes encontrados aponta para a base alimentar deste grupo, contendo espécies que são consumidas na região até os dias atuais, como robalos, bagres e corvinas. Além de outros menos conhecidos, como miraguaias, cangauá e sardo-de-dente.

A análise do material indica a pesca de pequenos peixes que viviam nas partes rasas da lagoa, cuja captura, possivelmente, teria sido feita com auxílio de plantas tóxicas que causam paralisia, possibilitando sua pesca em grandes quantidades.

Essa técnica, conhecida como “timbó”, foi utilizada por diversos grupos no passado. Como complemento alimentar, consumiam moluscos, frutas variadas, taioba, inhame, ervas, grãos e rizomas (parte entre a raiz e o caule).

Obras de duplicação BR-470

A pesquisa, autorizada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional), ocorre dentro do processo de licenciamento ambiental das obras de duplicação da BR-470, realizada pela empresa MPB Engenharia.

Segundo o biólogo e arqueólogo Thiago Torquato, “o licenciamento ambiental possibilita que a pesquisa arqueológica alcance locais que à primeira vista despertariam pouco interesse da comunidade acadêmica. Mas acabam por trazer à tona importantes descobertas sobre o passado dos grupos humanos que ocuparam a nossa região, muito antes da vinda dos europeus ao Brasil”.

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