Santur adianta que nomenclatura pode retornar somente daqui a dois anos | Foto: Kalyane Alves

3 de dezembro de 2019

Conflito armado, injustiças, fé e Guerra do Contestado são partes importantes da história de Curitibanos e região, que têm, em suas raízes familiares, histórias de participação deste período sombrio de luta e mortes de 1912 a 1916, quando milhares de vidas foram dizimadas na divisa de Santa Catarina e do Paraná. Após mais de cem anos, o período de perdas acaba de ser reacendido, com a região de Curitibanos sendo excluída do Vale do Contestado e passando a ser reconhecida como Vale dos Imigrantes, através de decisão da Instância de Governância Regional (IGR).

Com a alteração, a região tornou-se a 13ª região turística de Santa Catarina, oficialmente reconhecida pelo Ministério do Turismo e integrante do Mapa do Turismo Brasileiro 2019. De acordo com a Secretaria de Estado do Turismo (Santur), todo o processo foi feito de forma transparente e com reuniões com os municípios envolvidos. Responsável pela comunicação da Secretaria, Ana Paula Flores explicou que a discussão partiu de municípios do Norte do Estado, com intenção de explorar o turismo histórico em sua região. A discussão foi organizada pela IGR, organização com plenos poderes para tomada de decisões, com participação do poder público e de atores privados de municípios componentes de regiões turísticas, com o papel de coordenar o Programa de Regionalização do Turismo em âmbito regional.

Segundo Ana Paula, a IGR é aberta a todos os municípios, bastando demonstrar interesse na participação. “Foram realizados diversos debates e audiências acerca do tema, com objetivo de proporcionar melhor segmentação do turismo no Estado”, afirmou, adiantando que, a cada dois anos, é revisto o mapa turístico de Santa Catarina, com redefinição das regiões. Ela informou que, neste ano, não há mais como Curitibanos e região retornarem ao Vale do Contestado, havendo essa possibilidade somente daqui a dois anos, caso haja interesse e mobilização. Ainda de acordo com a Santur, o novo nome, Vale dos Imigrantes, foi escolhido baseado na relevância para venda comercial da região. “Todo o material de marketing já está em fase de produção e, em breve, as placas indicativas já devem ser instaladas”, completou Ana Paula.

Repercussão 

Com a nova divisão turística, as mesmas terras marcadas pelo sangue de tantas pessoas que lutaram na Guerra do Contestado perdem seu reconhecimento histórico e passam a ser chamadas de Vale dos Imigrantes. O prefeito de Curitibanos José Antônio Guidi (Dudão) revelou que foi pego de surpresa com a decisão e que o sentimento é de repúdio. “É a nossa identidade cultural e ela não pode ser desmembrada por nenhum acordo turístico”, declarou. Na Associação dos Municípios da Região do Contestado (Amurc), a mudança também foi recebida com indignação, principalmente pela falta de conversações sobre o assunto. “Nós, enquanto Amurc, vamos solicitar a ata dessas reuniões, pois entendemos que deveria ter acontecido, pelo menos, uma audiência pública na região para a retirada da nomenclatura local. É na nossa história que estão mexendo e não podemos deixar que isso continue acontecendo”, defendeu o secretário executivo da Amurc Valdir Tagliari, acrescentando, ainda, que em nenhum momento a Associação foi consultada para qualquer discussão sobre a mudança. 

No plenário da Assembleia Legislativa, o deputado Nilso Berlanda externou sua desaprovação sobre a perda do nome da região. “Devemos considerar a história da nossa região, do nosso povo, que tanto sofreu com as batalhas que por ali passaram. Desconsiderar esse movimento histórico e original é tentar apagar a memória da nossa brava gente. Não houve debate, não houve consulta. A nossa vontade e a vontade do povo é que permaneça o Vale do Contestado”, discursou.

Sem significado 

Para o pesquisador Aldair Goeten, a mudança fere profundamente as raízes locais. “É inadmissível tirarem a nossa história assim e nos dáa impressão de que tudo foi definido através de força política, querendo apagar as nossas características locais, pois um povo sem identidade é mais fácil de dominar”, declarou.Mesmo reconhecendo a indiscutível importância dos imigrantes para o Estado e região, ele defendeu que,se existisse um Vale dos Imigrantes,deveria ser próximo ao Vale do Rio do Peixe e onde passaram os trilhos da ferrovia. “A empresa responsável pela construção estabeleceu territórios onde somente os imigrantes poderiam habitar e ali se desenvolver,criando verdadeiras colônias internacionais,de onde surgiu o termo’colono’ para designar os moradores da região. Lá, sim, teria significado,não aqui para nós”, explanou.

Morador da região desde quando nasceu, Aldair relatou que cresceu ouvindo as histórias de sua família na participação da Guerra do Contestado.”Se existe algo que nos representa enquanto cultura local é o tropeirismo e o Contestado, identidades nossas, mas é bem mais fácil acabar com uma cultura do que lutar contra ela, por isso, tanto descaso com a raiz histórica que temos aqui, que foi palco de mais da metade das batalhas durante

Mais Acessadas