Mario Dalla Vechia perdeu a companheira Dirlei em março de 2005 e, desde então, passou a cuidar dos filhos, fazendo papel de mãe e pai ao mesmo tempo

9 de agosto de 2020

Mario Dalla Vechia tem 63 anos e mora em Ponte Serrada com uma das filhas. No dia 11 de março de 2005, ele passou por uma experiência que ninguém deseja viver: perdeu a mulher de forma inesperada. A esposa de Mario, Dirlei Bazi, com quem foi casado por 17 anos, acabou falecendo por conta de hipotiroidismo.

Dirlei foi professora, secretária e diretora da Escola de Educação Básica Dom Vital, e acabou sendo internada no dia 8 de março após se sentir mal. Três dias depois da internação, a mulher veio a falecer e deixou um grande desafio nas mãos de Mario: cuidar dos três filhos – Pedro Ernesto, de 27 anos, Maria Tereza, de 25 anos, e Maria Elena, com 24 – na época com 12, nove e oito anos de idade, respectivamente.

Mario relembra dos momentos difíceis que teve quando Dirlei partiu, mas afirma nunca ter desistido, porque “Deus nunca dá a cruz para quem não pode carregar”.

“Tivemos uma vida muito boa, de família muito unida e feliz, enfrentando sempre as dificuldades que a situação oferecia”, comenta ele, que precisou readaptar a vida após o triste acontecido.

Antes mesmo da morte de Dirlei, Mario trabalhava fora o dia todo e, dois meses antes da filha Maria Elena nascer, uma mulher passou a trabalhar na casa da família, ajudando nos afazeres e vivendo ali até cinco anos após Dirlei falecer. Alguns meses depois, Mario acabou ficando desempregado e isso lhe trouxe mais desafios. Recebendo a pensão de Dirlei, o pai passou a ficar em casa para cuidar dos filhos e dar todo o suporte necessário na vida deles.

“Até pensei em trabalhar, mas se eu fosse trabalhar fora, eu teria que deixar os meus filhos na casa dos outros, na mão de outras pessoas e não saberia como seria a criação desses filhos. Resolvi dedicar minha vida toda a eles. Não me arrependo em nenhum momento disso, pois consegui criá-los com muita educação, na medida do possível”.

Durante esse período em casa, fazendo o papel também de mãe, Mario aprendeu a fazer as tarefas domésticas, assim como a comida, o pão e, além disso, passou a falar sobre as coisas da vida com os filhos e auxiliar em tudo o que precisassem, como por exemplo, levar as filhas ao primeiro exame ginecológico ou falar sobre coisas íntimas de mulher.

“Eu acompanhava eles em tudo, na escola, igreja, e em todas as situações possíveis. Tive que orientar eles sobre sexualidade, sobre os perigos da vida. Tudo o que eu sabia, informava, e o que eu não sabia, pedia ajuda a alguém que soubesse mais do que eu”, relata.

Após cinco anos da morte da esposa, Mario conseguiu se aposentar. Depois disso, passou a acompanhar mais ainda os passos que cada filho dava, podendo ser, além de pai, o melhor amigo deles.

“Quando eu conversava com os meus filhos sobre a vida, eu sempre dizia “olha meus filhos, vocês podem ter todos os amigos do mundo, mas nunca esqueçam que o melhor amigo que vocês têm sou eu. Vocês têm toda a liberdade de perguntar para mim tudo o que vocês precisarem saber, e o que se eu não souber, vou procurar ajuda para orientar”, relembra.

Datas importantes sem a mãe

Assim como Mario, os filhos também acabaram sofrendo muito com a perda da mãe. As datas comemorativas, por exemplo, foram as mais difíceis para os três, principalmente o Dia das Mães.

“Foi um ano complicado, enfrentamos dificuldades em relação ao Dia das Mães e Natal para explicar para eles que não podia deixar de homenagear às mães na escola, porque a maioria, quase todos, tinham a mãe. Eles não aceitavam muito, porque não tinham a mãe para homenagear, então eles achavam que deveriam estar ausentes nessa situação.  Elas precisam entender, é  um trabalho de conscientização de superação. Conversei muito com eles”.

Mesmo com todo o sofrimento escondido e o choro calado, do qual não podia manifestar na frente dos filhos, Mario seguiu firme e forte na nova caminhada. Apesar de estar sempre relembrando tudo o que aconteceu, hoje se diz feliz por ter os filhos com ele e principalmente por já ter um neto na família. O pequeno João Pedro, filho de Pedro Ernesto, veio ao mundo no dia 13 de outubro de 2018.

Os três filhos de Mario já estão formados na faculdade e todos seguem uma profissão diferente. Pedro se formou em Educação Física e hoje possui uma academia junto da companheira e mãe do João, Morgana Tonelo. Maria Elena é formada em Psicologia e é a única filha a morar com Mario atualmente. Por fim, Maria Tereza tem formação em Farmácia e atualmente reside em Joinville.

“Minha vida de pai é muito feliz. Graças a Deus não tenho nenhuma queixa dos meus filhos e foi muito difícil, mas prazeroso, porque fui pai, fui mãe e eles reconhecem muito bem isso e isso me deixa muito feliz”, ressalta.“Queria aproveitar para desejar a todos os pais um feliz Dia dos Pais e que todos os que contém dificuldades levantem a cabeça e sigam em frente”, comemora.

Homenagem dos filhos

“Meu pai sempre me mostrou como enfrentar os desafios de cabeça erguida, com foco no meu objetivo e em um futuro melhor. Principalmente quando fui morar sozinha e ligava pra ele chorando que queria ir pra casa por que estava com saudades, e ele me falava para me acalmar e persistir no meu objetivo e lembrar que minha mãe também passou por dificuldades pra estudar e venceu a dificuldade pra se tornar professora. Tenho só que agradecer por ele ter enfrentado as dificuldades sempre e por ter nos ensinado o caminho do trabalho e da honestidade. Ele foi nosso guia. Hoje ele é nosso parceiro e refúgio, graças a Deus estamos maduros e criando a nossa vida e podemos compartilhar os bons momentos com ele”, agradece Maria Tereza, que hoje passa o dia dos pais ao lado de Mario.

“Quando meu pai ficou desempregado ele dispensou a empregada aqui em casa. Meu pai aprendeu a cozinhar, aprendeu a fazer bolo, ele limpava toda a casa, lavava roupa, passava cera no chão, tudo o que tu espera de uma dona de casa, ele fazia. Ele tinha 3 crianças, fazia almoço, lavava nossas roupas, deixava a casa limpinha, fazia tudo. Hoje chega ser até engraçado sabe, as pessoas me falam “MAS TEU PAI FAZ COMIDA, TEU PAI QUE LIMPA A CASA?” sim, é ele sim. E ele não sabia fazer nada disso antes, ou pelo menos não fazia antes de a mãe morrer. Sabe o que eu mais admiro? A dedicação dele, a preocupação, o cuidado que ele tinha em dar para os três o melhor que ele podia, e ele conseguiu. Se eu te falar que um dia faltou alguma coisa pra nós, tanto em questões materiais quanto sentimentais, eu estou mentindo. Ele foi sim Pai e Mãe. Hoje ele tem um filho Profissional de Educação Física, uma Farmacêutica, e uma Psicóloga, tudo porque ele se reinventou por nós três. Meu pai se privou de muita coisa na vida pelos filhos, ele viveu todos esses anos por nós, só por nós, nunca arrumou uma pessoa porque tinha os filhos, nunca saiu para passear porque tinha os filhos, nunca comprava coisas pra ele ou esbanjava porque tinha os filhos, hoje que nós entendemos, ele ainda fala que “como é que ele ia pensar em outra coisa, se ele tinha 3 crianças para tomar conta”. Primeiro nós, depois ele. Hoje ele tem viajado mais e saído mais de casa, e eu fico muito feliz de ver ele bem, hoje com seus 63 anos, com os filhos formados e encaminhados, já com um netinho. Ele tem mais é que aproveitar mesmo. Me diz, como não admirar um pai desses? No ano passado ele me mostrou um DVD que ele fez quando a mãe morreu *fita cassete na época. Ele se preocupou em buscar por imagens dela, falando em apresentações, formaturas, homenagens (ela era diretora de escola então tinha muito dessas coisas) tudo o que ele pudesse reunir para que nós filhos dela pudéssemos mais tarde ver e lembrar da nossa mãe como ela era (como éramos muito novos quando ela morreu, isso acaba se perdendo com o tempo infelizmente). Ele tomou o cuidado de só nos mostrar isso quando sentia que tínhamos maturidade emocional suficiente é claro, ele sempre foi muito cuidadoso. Ele passou todos esses anos, indo ao cemitério todos os sábados, limpar a capela, e acender uma vela, todos esses 15 anos da morte dela. Ele sempre tomou o cuidado para que nós tivéssemos ela presente de certa forma, ele julgava o certo, e realmente foi. Pode falar o que quiser, mas eu vejo meu pai como exemplo, como um espelho, inspiração. Eu tenho orgulho das lutas que ele travou na vida pra ter o que tem hoje e ser o pai que ele é”, comenta Maria Elena, que pela primeira vez passa o Dia dos Pais longe de Mario.

“Após a morte da nossa mãe, a vida dele passou a ser dedicada 100% para mim e minhas irmãs. Sempre muito preocupado em mostrar a vida como ela era de verdade, explicando sempre das consequências das nossas escolhas. Lembro de ele me levar duas vezes por semana para treinar em Vargem Bonita, tendo que passar em Irani para pegar quatro colegas de time. Enfim, temos certeza que ele deu o melhor de si para nós, e somos eternamente gratos e orgulhosos dele”,finaliza Pedro Ernesto.

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