Cálculos mostram que o número de mortes proporcional à população é menor no Brasil; sem fazer lockdown nem fechar economia, municípios brasileiros são referência no controle da contaminação e de morte

16 de fevereiro de 2021

A taxa de mortalidade calcula o número de mortes por Covid-19 proporcional à população de cada local. Na comparação entre cinco países, através desse cálculo, o Brasil tem a menor taxa: a cada mil brasileiros, 1,12 morre por Covid.

Já o Reino Unido tem o maior número: 1,69 por mil habitantes. Quando as taxas dos municípios são comparadas com a dos países, o número de óbitos proporcional à população chega a ser três vezes menor.

É o caso de Santana do Livramento, na fronteira gaúcha, de Rio do Sul, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina e Guarapuava na região central do Paraná. As três cidades apresentam um terço das mortes do Reino Unido.

Diferente de diversos países europeus, as três cidades com os índices de mortalidade que são três vezes menores do que o Reino Unido não fizeram lockdown. Pelo contrário, investiram em ações de estímulo à economia.

No município de Rio do Sul, a consciência da população é destaque. Há um esforço coletivo para o respeito das normas sanitárias, que garantiu a manutenção das atividades do comércio e empregos.

“Isso está gerando renda e fazendo todo o seguimento girar”, diz Jean Pedroso, que preside a Acirs (Associação Empresarial de Rio do Sul).

Em Santana do Livramento (RS), houve a manutenção das atividades do comércio de fronteira e ampliação dos serviços online.

“Muitas empresas aqui em Santana do Livramento já tinham suas páginas nas redes sociais, mas não trabalhavam tão intensamente e passaram a trabalhar isso durante os meses da pandemia”, diz o diretor executivo da Associação Comercial e Industrial de Livramento, Henrique Machado Bacchio.

Em Guarapuava (PR), a medida principal foi o investimento em tecnologia para o monitoramento das pessoas que apresentam sintomas. O prefeito de Guarapuava Celso Fernando Goés diz que na economia o foco foi manter as atividades em funcionamento.https://ff5033e327dd76a682baa1948500baa2.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

“A população entendeu que nós não optamos pelo lockdown. Nós não fizemos isso. Nós entendemos que a lógica da contaminação era intrafamiliar, era nos grupos familiares que as pessoas se descuidavam e não utilizavam as máscaras com tanta rigidez”, diz.

Série Vidas Salvas – Taxas de Mortalidade – Foto: Rogério Moreira Jr/Arte/ND

Resistência aos medicamentos

Os números foram apresentados para especialistas. A médica endocrinologista Ana Paula Gomes Cunha diz que o tratamento precoce e a profilaxia reduzem o risco de complicações da doença e de mortalidade, como é o caso de Porto Feliz.

Ela afirma que a alta mortalidade dos países europeus está relacionada com a resistência aos medicamentos.

“Na Europa eles não fazem o tratamento precoce. Eles seguem o que a OMS diz. E a OMS é contra. Lá nos Estados Unidos, dependendo das cidades, tem variação na taxa de mortalidade conforme faz o tratamento precoce ou não”, explica.

O caso de Caçador

Nos cálculos, os países apresentam os menores números seguidos dos estados e dos municípios. No entanto, Caçador apresenta taxa de 1,03, que chega a ser superior aos números dos estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Na edição de sexta-feira (19), o ND+ contará como o município catarinense chegou a taxa reduzida – Foto: Divulgação/ND

Os índices do município apresentam contrassenso. Apesar de figurar com mortalidade alta, a cidade tem um dos menores números de contaminados no cálculo proporcional à população.

O secretário de saúde do município, Roberto Marton, analisou os números e o perfil das vítimas de Covid-19 na cidade. Ele atribui o índice elevado de mortes à característica da população que apresenta idade elevada.

Já o baixo índice de contaminados, na visão do secretário, está atrelado com as ações de fiscalização do poder público para impedir o descumprimento das medidas sanitárias.

“Os controles que foram elaborados pela administração são muito eficientes, nós trabalhamos em conjunto com a Polícia Civil, com a Polícia Militar e a Vigilância Sanitária”.

Dados de óbitos nos Cartórios indicam que não há subnotificação

O Portal da Transparência do Registro Civil reúne os números de todos as mortes registrados no país, independente da causa. São 7.650 cartórios que registram todos os óbitos do país, seja por questões de saúde, violência, acidente de trânsito ou outros motivos.

Os números variam ano a ano, mas a média fica na faixa de um milhão. Em 2016, foram registradas no país 1.028.439 mortes. No ano seguinte houve um acréscimo de 34 mil mortes.

Em 2018, houve um salto de 134 mil mortes a mais no comparativo com o ano anterior. Em 2019, o acréscimo foi de 65 mil óbitos. Já em 2020, marcado pela pandemia, houve um aumento de 190 mil mortes em relação a 2020.

Para calcular a taxa brasileira de mortalidade, foram usados os números oficiais dos registros de Covid-19 no Brasil, que ultrapassaram 236 mil óbitos. Mesmo que haja óbitos atribuídos equivocadamente à Covid, ainda assim a taxa brasileira é a menor.

Em caso de subnotificação através do registro de óbitos por outros motivos atribuídos à doença, o acréscimo de mortes nas estatísticas do Registro Civil no ano de 2020 deveria apresentar um pico superior.

Influência das características da população nos resultados

O médico especialista em cardiologia e em medicina intensiva, Fernando Graça Aranha, diz que os motivos para os números desses municípios brasileiros serem menores do que os dos Estados Unidos e alguns países da Europa podem ser diversos.

“É difícil afirmar o motivo disso sem correr risco de errar feio ou de ser injusto. Pode ser multifatorial”, diz. “A primeira coisa é ter certeza (e talvez não dê pra ter) que as métricas estão corretas. Digamos que estejam. Aí passamos para a etapa de imaginar as possíveis causas das diferenças”.

O médico apresenta possibilidades. “Pacientes com riscos diferentes? Exemplo: obesidade em média maior nos Estados Unidos; questões genéticas: já sabemos que determinadas famílias apresentam evolução pior que outras. Quem sabe em média nossos genes nos protejam um pouco mais?”, questiona.

A profilaxia e os sistemas de saúde dos países também são alvo de análise do médico. “Tratamento precoce em média mais utilizado? É outra possibilidade”, diz.

“Como os sistemas de saúde dos EUA e Inglaterra são melhores que os nossos (e são mesmo, a despeito dos que possam dizer os que acham que não) e então o esperado seria o inverso. Sendo fato de que morrem menos por aqui… realmente algo está fazendo a diferença”.

As cinco cidades analisadas

Porto Feliz (SP): investiu diagnósticos e distribuição de medicamentos à população. Reportagem foi publicada na quarta (10).

Rio do Sul (SC): consciência da população é destaque no município Reportagem será publicada na quarta (17).

Caçador (SC): desenvolveu ações de fiscalização conjunta para o cumprimento das regras sanitárias. Reportagem será publicada na sexta(19).

Guarapuava (PR): investiu em tecnologia para monitoramento de casos e coleta de dados para a tomada de decisão. Reportagem será publicada na quarta (24).

Santana do Livramento (RS): cidade de fronteira com forte movimento no comércio investiu no em serviços online para manter as vendas. Reportagem será publicada na sexta (26).

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